Ibama esclarece dúvidas sobre caça ao javali PDF Imprimir E-mail

Brasília (01/10/2010) – O coordenador de Gestão do Uso de Espécies de Fauna, da Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas (DBFlo/Ibama), Vitor Hugo Cantarelli, em entrevista concedida a órgãos da imprensa gaúcha na última quarta-feira (29), voltou a tratar da questão relativa ao controle de caça ao javali.

Informou, inicialmente, que essa caça não é uma questão que diz respeito somente ao Rio Grande do Sul (onde se estima que haja uma população de mais de 54 mil indivíduos) mas também a outros estados do país já que a espécie também se dissemina em áreas de SC, PR, SP, RJ, MS, MT, GO, MG e Bahia. Como já está na região do Pantanal, há a preocupação de invadir também os territórios da Bolívia e do Paraguai.

Esclareceu que, por ser o javali muito agressivo, tem provocado acidentes fatais com pessoas despreparadas para seu enfrentamento e que, como portador de doenças, traz e provoca prejuízos à agricultura, além de questões de saúde pública, sendo, então, necessária a ação conjunta com outros ministérios (saúde, Agricultura, Ministério das Relações Exteriores) e de órgãos governamentais de meio ambiente (estaduais e municipais) para se debelar a praga.

Por outro lado, dada a complexidade do problema, a caça em si não é a solução definitiva para o caso, é apenas um paliativo: na prática, o javali continua proliferando-se (a instrução normativa que permitiu a caça não foi suficiente). Por isso, é preciso que haja o envolvimento de outros órgãos e da sociedade civil para, juntamente com o Ibama, buscar-se o controle efetivo da situação, fazendo-se mister até a criação de uma força-tarefa que se respalde nas decisões da sociedade como um todo e não em resoluções arbitrárias. Para tanto, está sendo proposta a criação de um grupo de trabalho permanente com representantes do setores envolvidos, inclusive aqueles que possuem experiência no enfrentamento ao javali.

Cantarelli espera que, dessa forma, a formação de um grupo (bem organizado e não setorial) atenda as expectativas, salientando que os técnicos do Ibama necessitam trabalhar com informações que possam também ser fornecidas por outros órgãos a fim de definirem soluções em conjunto: “o Ibama não deve ser responsabilizado isoladamente”.

A proposição do grupo de trabalho é que se combata sistematicamente a praga inerente à proliferação do javali até que seja estabelecido mecanismo de avaliação e monitoramento que ateste ter-se um controle efetivo da espécie sem se perder de vista a preservação das demais espécies da fauna, mesmo porque o javali também já invadiu unidades de conservação, onde os danos aos ambientes e à fauna existente devem ser avaliados com maior rigorismo.

Neste sentido e adiantando-se para que as informações cheguem de forma organizada e rapidamente, o Ibama já elaborou um formulário/questionário para levantar a situação em cada município, mapeando o tipo de prejuízo causado, a quantidade de javalis, seu movimento etc., posto que existe um leque de variáveis a considerar, como, por exemplo, o fato de a espécie conviver com animais domésticos e com pessoas e ter comportamentos diferenciados em função do ambiente que infesta.

Finalmente, o coordenador afirmou que é preciso observar os princípios éticos da sociedade inerentes à questão, afora os legais, devendo ficar de fora os aspectos emocionais e motivacionais provocados pelos danos econômicos, que induzem a práticas que podem ser rechaçadas pela sociedade. Afinal, outras tantas espécies já foram introduzidas pelas práticas econômicas e viraram pragas que provocam prejuízos maiores mas que não despertam a mesma carga emocional do que a relacionada ao javali: caramujo gigante, lebre europeia, peixe-rei, carpas, tilápias, bagre-africano, bagre-do-canal, abelha africana, mexilhão dourado, rã-touro, tigre d’água, capins de diversas origens e outras infestações de lavouras por ácaros, lagartas, bactérias, fungos, sem contar as próprias espécies domésticas, todas exóticas.

“Esperamos que o problema do javali traga uma reflexão sobre as práticas erradas que os processos produtivos causaram nos ambientes ao longo do tempo ou sobre as espécies silvestres e possamos ter uma sociedade mais atuante no respeito à natureza e em seu uso sustentável”, concluiu.

Jucier Costa Lima
Ascom/Ibama