Riscos Ambientais PDF Imprimir E-mail

Riscos Ambientais

O Brasil tem a maior diversidade de peixes de água doce (ou águas continentais) no mundo, possuindo mais de 2.500 espécies registradas, e inúmeras espécies não descritas ou desconhecidas pela comunidade científica, apontando para estimativas de que só nas águas continentais brasileiras existam aproximadamente 5.000 espécies. Muitas destas espécies geram interesse para o mercado de aquariofilia. Para os peixes marinhos estima-se que tenhamos mais de 1300 espécies, entretanto o conhecimento sobre as mesmas é bem maior. (Sabino e Prado 2003)

Duas das principais maneiras pelas quais o mercado de peixes ornamentais pode afetar populações naturais são a introdução de espécies exóticas e a diminuição direta dos estoques pela pesca (Andrews 1990).

De acordo com a lista vermelha da IUCN de 2006, 1173 espécies de peixe estão ameaçadas, mas apenas um pequeno número dessas tem interesse comercial para a pesca ornamental. Dessas, algumas são de interesses apenas de uma minoria de colecionadores especialistas que, em geral, reproduzem e mantém, eles mesmos, os animais, efetuando trocas e comércio entre si. Outras são produzidas em cativeiro para abastecer o mercado de peixes ornamentais. Poucas ainda são coletadas na natureza, como o caso da aruanã asiática, que também é produzida em cativeiro. (Andrews 1990)

2.1 Explotação de estoques naturais, e sustentabilidade.

Peixes ornamentais são, potencialmente, um dos poucos recursos realmente sustentáveis na bacia amazônica. Em teoria, traços biológicos como curto ciclo de vida e alta produção de ovos, somados a métodos de coleta de baixo impacto e os padrões ambientais extremos das estações chuvosas limitam naturalmente a exploração desses recursos (Andrews, 1990).

Essa sustentabilidade, no entanto, não é respaldada por amostragens ecológicas padronizadas. Relatos informais de pescadores na Amazônia Peruana indicam que o número de espécies coletadas está diminuindo e os pescadores viajando mais para capturar o mesmo número de peixes. (Moreau and Coomes 2006).

Comunicação pessoal com alguns pesquisadores na amazônia brasileira também apontam para um aumento no tempo de pesca nas áreas mais tradicionais para se conseguir as mesmas quantidades de peixe, e indicam um forte deslocamento do esforço de pesca para as regiões do Rio Negro mais próximas da fronteira.

O comércio de peixes ornamentais já contribuiu para extinção de populações locais de peixes no sudoeste asiático (Ng e Tan 1997), e algumas populações mais valorizadas de Acará-Disco (Symphysodon aequifasciatus ou S. discus) no Brasil aparentemente colapsaram devido à sobre-explotação (Crampton, 1999 apud Moreau e Coomes 2007).

Na pesca marinha houve a inclusão em 2007 do Cardinal Bangai (Pterapogon kauderni) na lista de espécies ameaçadas da IUCN, por força do seu alto endemismo, baixa fertilidade e alta pressão de coleta pra uso ornamental (Allen 2000). Os cavalos marinhos, que são controlados pela Convenção Internacional de Comércio de Espécies Ameaçadas - CITES, têm usos múltiplos, o que faz com que se somem as pressões de pesca para uso medicinal, artesanato e ornamental, além da pesca incidental por frotas de camarão.

Enquanto coletas de peixes amazônicos vem sendo feitas frequentemente para estudos de taxonomia, existem muito poucos dados quantitativos padronizados sobre abundância e distribuição de espécies de peixes ornamentais e impactos ecológicos dessa pescaria são largamente desconhecidos (Bayley e Petrere, 1989 apud Moreau e Coomes 2006).

Estudos realizados recentemente por Gerstner et all na Amazônia Peruana foram os primeiros a mostrar dados claros e passíveis de padronização para apontar indícios de sobrepesca no extrativismo de peixes ornamentais, mas também mostrou ser possível sua utilização sustentável, quando os indicadores utilizados não apontaram para alterações significantes de diversidade biológica entre áreas não exploradas e áreas exploradas com um mínimo de ações de manejo.

Ainda que sem o respaldo de amostragens ecológicas padronizadas, ao se comparar a pesca ornamental com a mineração, o corte de madeira, a pesca da lagosta ou o corte de piaçava, aparentemente temos uma atividade menos impactante, o que nos direciona no sentido de tentar manter essas pessoas na pesca ornamental e evitar que se desloquem para outras atividade.

A importância ecológica dos peixes de pequeno porte é imensa, já que ocupam os mais distintos níveis tróficos e podem atuar nos ecossistemas das mais diversas maneiras, desde dispersores de sementes a predadores de larvas de insetos vetores de doenças humanas. Isso vincula a conservação do grupo à adoção de argumentos não-econômicos, traduzidos em políticas públicas e medidas de regulamentação.

2.2 - Cultivo e potencial invasor de espécies ornamentais.

A produção de aqüicultura de peixes ornamentais no país é quase totalmente voltada para espécies de águas continentais e para o mercado interno, principalmente fornecendo para São Paulo e Rio de Janeiro (Vidal, 2002). Para espécies marinhas, têm-se relatos de cultivo no Brasil apenas de peixe palhaço (Amphiprion sp.), espécie nativa das costas oeste da África e sul e sudeste da Ásia. Recentemente o Ibama vêm acompanhando um cultivo de cavalos-marinhos (Hippocampus reidi) que já está comercializando, e estudos com reprodução do Neon Gobi (Elacatinus Fígaro), espécie considerada ameaçada de extinção pelo Ministério do Meio Ambiente, foram realizados com sucesso em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Grande parte dos cultivos de peixes ornamentais no país é voltado para espécies exóticas (vindas do exterior ou de diferentes bacias hidrográficas no Brasil). Segundo informações do IBAMA-Ceará, somente naquele estado foi declarado o cultivo de 122 espécies de peixes ornamentais de águas continentais, todas alóctones, sendo 14 encontradas em bacias hidrográficas no território brasileiro e 108 em áreas externas ao território nacional. Em Pernambuco, um único criador de peixes ornamentais listou 127 espécies que são cultivas por ele, e nenhuma era nativa do estado.

Além do cultivo de espécies exóticas, importações de espécies marinhas e de águas continentais para fins ornamentais são feitas no Brasil. Somente em 2006, empresas de São Paulo requisitaram ao Ibama, autorizações para importação de mais de 200 espécies de peixes de água doce, 150 espécies de invertebrados e quase 500 espécies de peixes marinhos.

Grande parte das espécies de água doce de uso ornamental possui pequeno porte, e a maioria das espécies exóticas comercializadas, principalmente as oriundas da Ásia e da Oceania, são originárias de áreas de cabeceira ou rios e córregos de pequeno porte. O mesmo é verificado para as espécies brasileiras. Quando introduzidas em uma determinada área, tendem a se estabelecer em lugares, semelhantes a seus ambientes naturais, passando a competir com espécies nativas.

Isso dificulta que elas sejam detectadas em ambientes naturais, uma vez que não são capturadas pelos apetrechos de pesca tradicional e, por isso, dificilmente aparecem nas estatísticas oficiais, tornando as informações sobre introduções e estabelecimentos de peixes ornamentais em corpos de água naturais bastante escassas.

Em estudos na região de Muriaé, Minas Gerais (Alves, 2005), grande pólo da aqüicultura de ornamentais, levantamentos ictiológicos de cursos d’água apontaram para índices de 58 a 63% de sua composição ictiofaunística representada por espécies alóctones, sendo destacada a ocorrência de algumas espécies exóticas pertencentes aos mesmos gêneros de espécies nativas da região, com funções ecológicas semelhantes. Isso significa um alto potencial competitivo e conseqüente risco para as espécies nativas por ocupação de seu nicho ecológico.

Martins (2004) relata a ocorrência de 11 espécies introduzidas no Estado do Rio de Janeiro, oriundas do cultivo para fins ornamentais na região dos municípios de Nova Iguaçu e Magé, havendo duas delas, o lápis (Nannostomus beckforti) e o pirá-tãtã (Copella nigrofasciata) se espalhado além das áreas de produção.

De maneira informal, existem diversos relatos da ocorrência de beta (Betta splendens) em riachos da região Nordeste, e de tricogaster (Trichogaster trichopterus). na bacia do Rio Negro, Amazonas. No caso do tricogaster., a situação pode gerar sérias complicações, pois a região é o maior pólo extrativista de espécies ornamentais do país.

Diversos levantamentos ictiológicos mais recentes em afluentes da bacia do Paraná, em São Paulo, têm detectado a presença de mato-grosso (Hyphessobrycon eques) e tetra preto (Gymnocorymbus ternetzi), espécies de utilização e cultivo bastante difundidos pela aqüicultura ornamental.

Tlusty (2002) afirma que nos EUA já foram encontradas 185 espécies exóticas em ambientes naturais, das quais pelo menos 75 estavam comprovadamente estabelecidas. O banco de dados de introduções de espécies aquáticas - DIAS - da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), registra 296 casos de introduções de organismos aquáticos causadas diretamente por atividades de aquariofilia.

Em dados coletados desde 1999 (Semmens at al., 2004), foram registradas avistagens de 16 espécies de peixes marinhos não nativos no Atlântico oeste tropical norte, em 32 localidades diferentes. Segundo os autores, essas introduções parecem ser substanciais e crônicas, sendo constatado o estabelecimento de populações como as do Peixe-leão (Pterois volitans) que possui espinhos com substâncias altamente tóxicas.

No mercado de peixes ornamentais as demandas são, freqüentemente, ditadas por modismos, e os principais fatores de seleção de indivíduos são estéticos. Segundo alguns relatos, parecem ser comuns práticas de descarte, nos rios que margeiam as pisciculturas, dos indivíduos que não se enquadram nos padrões estéticos demandados pelo mercado; Já foram feitas, também, denúncias sobre a liberação de estoques inteiros para esvaziamento dos tanques e ganho de espaço para cultivo de novas espécies.

Saindo da esfera da aqüicultura e adentrando o público consumidor (hobbystas, entusiastas e colecionadores), ainda persiste certo risco de introduções. A falta de informação sobre riscos de descarte de indivíduos em ambientes naturais é muito grande e relatos de descarte em ambientes aquáticos naturais ou represas, quer sejam em ambiente urbano ou não.

Um problema muito comum é quando o comprador é induzido a adquirir indivíduos jovens de espécies que chegam a grande porte. Em cerca de um ano ou menos, esses peixes (quase sempre predadores agressivos) se tornam um estorvo, e são descartados pelo hobbysta em ambiente natural. Tal fato pode ser responsável por até 35% dos casos de introdução (Tlusty, 2002).
A introdução e o cultivo de peixes exóticos para fins ornamentais não pode ser visto apenas como uma ameaça, pois vantagens ambientais podem ser obtidas, contanto que a segurança para evitar riscos de invasão e estabelecimentos dessas espécies seja pré-requisito.

A introdução de espécies exóticas de corais pode ser vista como uma alternativa à utilização de espécies nativas. Os corais brasileiros apresentam um crescimento mais lento se comparados aos corais do pacífico. O risco de estabelecimento das espécies exóticas que sobrevivem apenas em águas com baixa turbidez e mínima quantidade de material particulado suspenso, é mínima. Nesse caso, a possibilidade de introdução dessas espécies exóticas pode ser benéfica, uma vez que as espécies nativas estariam sendo preservadas.
Organismos exóticos têm sido importados, comercializados e cultivados em diversas regiões do nosso país por décadas. A atividade gera emprego, renda e divisas. É possível que espécies alóctones sejam utilizadas sem riscos, para tanto é imprescindível um estudo prévio para avaliar a capacidade das espécies de se estabelecer e se dispersar em ambientes naturais.

BIBLIOGRAFIA

Allen, G. R. (2000). “Threatened fishes of the world: Pterapogon kauderni Koumans, 1933.” Environmental Biology of Fishes 57(2): 1.

Alves, C.B.M. (2005) Espécies Exóticas de Peixes em Minas Gerais - Situação atual e estudo de caso: Rio Glória (Bacia do Paraíba do sul). In: Seminário Nacional sobre Espécies Aquáticas Invasoras - CD-ROM.

Andrews, C. (1990). “The ornamental fish trade and fish conservation.” Journal of Fish Biology 37(A): 7.

Gerstner, C. L., H. Ortega, et al. (2006). “Effects of the freshwater aquarium trade on wild fish populations in differentially-fished areas of the Peruvian Amazon.” Journal of Fish Biology 68: 14.

Martins, C. H. (2004) Os Peixes ornamentais nativos e introduzidos no Rio de Janeiro e municípios vizinhos. Disponível em: http://www.maniadebicho.com.br/aab/artigos/aquario_dulcicola_peixes_nativos_e_introduzidos.htm na data de 14 de Fevereiro de 2006.

Moreau, M.-A. e O. T. Coomes (2006). “Potential threat of the international aquarium fish trade to silver arawana Osteoglossum bicirrhosum in the Peruvian Amazon.” Oryx 40(2): 152-160.

Moreau, M.A. e O.T. Coomes. (2007). “Aquarium fish exploitation in western Amazonia: conservation issues in Peru” Environmental Conservation 34(1):12-22.

Ng, P. K. L. e H. H. Tan (1997). “Freshwater Fishes of Southeast Asia: potential for the aquarium Fish trade and conservation issues.” Aquarium Sciences and Conservation 1: 12.

Sabino, J. e P. I. Prado (2003). Avaliação do Estado do Conhecimento da Diversidade Biológica do Brasil. Versão Preliminar. Brasília, COBIO/MMA - GTB/CNPq - NEPAM/UNICAMP:131.

Semmens, B. X.; Buhle, E.R.; Salomon, A.K.; Pattengill-Semmens, C. V. (2004). A Hotspot of non-native fishes: evidence for the aquarium trade as an invasion pathway. Marine Ecology Progress Series. vol. 266: 239-244

Tlusty, Michael (2002) ‘The benefits and risks of aquacultural production for the aquarium trade’, Aquaculture, vol 205: 203-219

Vidal, M.V..(2002). As Boas Perspectivas Para A Piscicultura Ornamental. Panorama da Aqüicultura. vol. 12, n. 71: 41-45.

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